Comecei a fazer mímica em 1988 e a partir de 1995 iniciei uma pesquisa sobre a ação de outros mímicos pelo Brasil a fora. Este texto foi escrito a partir de especulações intuitivas e conversas com artistas ligados ao teatro gestual brasileiro e internacional.
Luis de Lima (falecido em
2002) nasceu em Portugal e veio para o Brasil tornando-se, desde a década de
1950 uma referência nesta arte. Ele foi um Intelectual que estudou mímica com
os mestres franceses, tornando-se, inclusive, amigo pessoal do grandioso
Etiénne Decroux, considerado o maior mestre contemporâneo desta arte. Depois de
um certo período, Luis de Lima passou a dedicar-se ao teatro
literário, tornando-se tradutor e intérprete de autores como Yonesco, entre
outros. Além de destacar-se no teatro, ele dedicou-se também ao cinema e
televisão. Durante seus últimos anos, revezava seu trabalho artístico com
oficina de iniciação à arte da mímica, que ele nunca deixou de divulgar na
mídia que o cercou.
São eles: Vicentini Gomez, Luis
Otávio Burnier, Paulo Yutaka, Denise Stoklos e Lina do Carmo.
Lina do Carmo – Fortalecendo
o time de mulheres que elevaram o nível técnico e prático da mímica teatral,
Lina do Carmo aprofundou-se nos estudos com Marcel Marceau tornando-se sua
assistente até voltar-se totalmente para sua própria
linguagem mergulhando profundamente na arte e investigação do corpo
como forma de linguagem artística, evoluindo para uma linguagem que transcende
o gesto. Ela encontrou as mais difusas escolas corporais da Europa e se afirmou
com um trabalho onde a mímica atinge forte presença.
O Ritual de Passagem.
No Rio de Janeiro, o mímico Josué
Soares foi um dos destaques da década de 1980 com Luiza Monteiro quando, juntos
com Creso Filho, fundaram o grupo “Mimotropical” que cobriu a primeira metade
da década dando espaço para o grupo “Os Mimos”, que surgiu após a dissolvição
do Mimotropical, e foi o grupo dominante até a metade dos anos 1990. No grupo
“OS MIMOS” revelaram-se talentos como Toninho Lobo, de Minas Gerais, Suzana
Fuentes, do Rio de Janeiro, e Aníbal Sá, também do Rio de Janeiro. Mais tarde,
o grupo passou a funcionar com novos artistas e a sua última formação contava
com o mímico Alex- Sandro e Márcio Machado, ambos já falecidos e, também, a
participação esporádica de Mário Fiorim Neto.
Também influenciei, num certo
sentido, o mímico Mário Fiorin Neto e, certamente, Álvaro Assad que, embora
tenha técnica bem diferenciada da minha, não podemos negar que fomos afetados
um pelo estilo do outro, durante o período em que trabalhamos juntos formando
uma dupla de mímicos entre 1992 e 1994.
As pesquisas de Etiénne Decroux
encontraram ressonância, recompensando assim seus longos anos de estudo,
pesquisa e desenvolvimento da mímica corporal e, hoje, jovens do mundo todo
estão descobrindo sua técnica e buscando-a vigorosamente. No entanto, o ensino
da pantomima por parte de mímicos mais intuitivos, tem prestado um serviço
primordial para despertar o talento nos jovens. Quando um jovem ator aprende
técnicas de encenação gestual, e coloca em prática um repertório apreendido de
solos gestuais, vai encontrando, aos poucos, a revelação da arte do gesto em
todas as suas nuances. Isto aconteceu com o jovem ator Victor Seixas que, depois
de ter sido iniciado em uma de minhas oficinas de 1992, nunca mais parou de
estudar e, tendo esgotado as possibilidades de estudos no Brasil, foi estudar
na escola de Mímica Corporal Dramática, que antes era em Paris e agora está
situada em Londres. Posso dizer, orgulhoso, que Victor Seixas já me
superou em todos os sentidos, mas foram as simples aulas de pantomima e
iniciação gestual que o despertaram para o sacerdócio da arte do ator.
Tenho grandes esperanças na arte da mímica. Acho um luxo para o Brasil termos nomes tão significativos nesta arte fazendo bonito dentro e fora do país. Você, amigo leitor, não tem idéia do que é um espetáculo do Everton Ferre ao vivo, ou do Fernando Vieira, do Luis Louis, do Josué Soares. A capacidade de emocionar através do gesto é o que faz da mímica uma das artes de primeira linha em diversos países do mundo. Não é à toa que podemos senti-la nos passos do Michael Jackson, nas interpretações de atores como Robin Wiliams, Jimi Carey e tantos outros do cinema americano e nacional. A Mímica influenciou fortemente o Hip Hop, as danças de rua e a Dança Contemporânea. Nos países Orientais a mímica tem status de arte principal e os mímicos são muito respeitados e amados por crianças, mulheres e homens. É uma arte que tem muito a dar à humanidade e que tem no Brasil alguns de seus principais intérpretes no mundo do espetáculo contemporâneo.
Jiddu Saldanha - Junho de 2004
22 anos depois de ter iniciado minha carreira nesta arte, um painel de artistas interessantes e diferenciados foi se delineando e vi a necessidade de contar, da minha maneira, esta história que, espero, contribua para a informação dos mais jovens.
Desde Luis de Lima e Ricardo Bandeira, a mímica iniciou uma grande aventura estética e política, para se afirmar como arte no Brasil. Agora, com muitos passos dados e caminhos conquistados, resta estender o olhar para o futuro desta arte.
Desde Luis de Lima e Ricardo Bandeira, a mímica iniciou uma grande aventura estética e política, para se afirmar como arte no Brasil. Agora, com muitos passos dados e caminhos conquistados, resta estender o olhar para o futuro desta arte.
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Três gerações da mímica. Eduardo Coutinho (esquerda)
Vinícius Della Líbera(Centro) Jiddu Saldanha (direita). |
Reflexões sobre a história
esquecida dos mímicos brasileiros.
- por Jiddu Saldanha /junho
- 2004
A mímica tem essa coisa atávica,
porque faz parte da vida humana. Somos seres gestuais, antes de qualquer coisa.
Dizemos o que queremos com olhos, boca e mãos sem precisar pronunciar palavras.
Na arte da mímica em si, tudo
vira metáfora pois, através da pantomima, pode-se dizer coisas que chegam às
pessoas por vias sutis e vão, aos poucos, revelando uma teia de acontecimentos
na sensibilidade de quem se coloca para os mistérios e as novidades da arte.
Mímicos como Josué Soares,
Fernando Vieira e Cleber França nos transportam para uma estrutura cênica pela
qual se configura a arte do gesto. O mímico precisa preservar seu lado criança
evitando, assim, a lógica estrutural do mundo adulto que sempre formaliza os
resultados. Precisamos de um certo “acidente de percurso" para entender,
de fato, as nuances de nossa arte e executá-la, até ir se instalando na
sensibilidade do mundo interior do expectador.
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Uma colagem virtual feita por Vinícius Della Líbera, em 2005, mostra a gama de mímicos brasileiros atuantes entre a década de 80 até por volta de 2005. |
Eu tenho muita fé na arte da
mímica. Acredito que é uma forma de expressão que vale a pena ser vivenciada em
todos os seus aspectos. Estamos avançando, e vamos dar a volta por cima em
relação ao que acontece hoje no Brasil. Esta falta de foco que todo o país
atravessa, esta falta de reconhecimento para um dos mais belos aspectos da
história de nosso teatro. Os mímicos estão revestidos de uma história plena de
resultados e não são poucas as histórias que podemos contar a respeito de
nossos feitos por este país afora.
A mímica tem como foco o corpo
total do ator e o imaginário da platéia. Para nós a fala pode ser lida como
gesto, porque o contexto e as intenções são outras, que não as do teatro
tradicional que é literário e falado. O mímico se locomove num universo de
silêncio (se for clássico) e pode se apropriar do mundo sonoro, das
onomatopéias (se for contemporâneo), fazendo ponte com o fundo musical. Existem
visões dissonantes entre o que pode ser um teatro gestual e um teatro de
mímica, os contextos variam e os resultados conseguidos por atores são
infinitos, dada a riqueza desta forma de expressão.
O Brasil tem dois grandes mestres
nesta arte, que podemos considerar nossos pioneiros: Luis de Lima e Ricardo
Bandeira. Foram eles que deram origem à genealogia da mímica no Brasil.
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Baluartes da mímica no Brasil! |
Ricardo Bandeira (falecido
em 1995) era carioca e construiu a maior parte de sua carreira em São Paulo.
Tinha uma visão orgânica do teatro. Era autodidata, uma espécie de batalhador e
um romântico, engajado
na causa do comunismo. Viveu de mímica uma boa parte de
sua vida e também se dedicou ao cinema, ao teatro tradicional e à literatura.
Ricardo Bandeira morreu um pouco esquecido, deixando uma imensa obra e muitos
admiradores. Três dos grandes mímicos brasileiros cruzaram pelo seu caminho:
Cleber França, Duda de Olinda e Alberto Gaus. Sabe-se que Ricardo Bandeira foi
uma fonte de inesgotável inspiração para quase todos os mímicos de São Paulo.
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Vicentini Gomes, herdeiro de uma linhagem genuinamente brasileira! Conviveu com os grandes mestres da mímica e ajudou a pavimentar o caminho. |
A Corrente Intermediária.
Após o trabalho duro de Luis
de Lima e Ricardo Bandeira, surgiu uma sucessão de nomes que foram
mais ou menos contemporâneos, iniciando um processo de multiplicação de
artistas gestuais através de seus trabalhos e suas pesquisas.
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Lina do Carmo, uma vasta experiênciana Europa a partir dos anos 80. |
Vicentini Gómez - Foi,
durante a década de 1970 até meados dos anos 1990 um incansável trabalhador nos
palcos brasileiros, sendo vocacionado para a arte da mímica teatral.
Vicentini era e é um excelente produtor, levando seu repertório de espetáculos
solos a diversas cidades brasileiras e outros países atingindo sucesso de
público e crítica, conseguindo importantes inserções na mídia brasileira.
Diversos atores fizeram contato com Vicentini e aprenderam com ele a
técnica que aprendera com Ricardo Bandeira.
Luis Otávio Burnier –
Burnier teve sua formação na França e estudou com Etiénne Decroux, o mestre
maior da mímica. Aprofundou-se no conhecimento da mímica corporal dramática e
de volta ao Brasil fundou o núcleo de pesquisa teatral LUME da UNICAMP, onde
iniciou a pesquisa da “mimésis corpórea” que poderíamos chamar de um
investimento técnico-científico na gestualidade cultural brasileira.
Paulo Yutaka – Foi um dos
grandes performer’s de São Paulo, tendo influenciado muitos artistas
que, ao assistirem suas performances, acabaram abraçando a carreira da arte da
mímica. Ele investiu numa carreira séria e fez ótimos espetáculos, inclusive
tendo dirigido diversas peças de teatro.
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Cleber França, discípulo assumido de Ricardo Bandeira. |
Denise Stoklos – O talento
de Denise Stoklos e, sobretudo, seu altíssimo nível intelectual fez dela
uma performer de destaque em toda a década de 1980/90 e atualmente.
Denise foi, talvez, o maior acontecimento do teatro brasileiro deste período.
Ela foi aprender mímica na Inglaterra com Desmond Jones e depois evoluiu para
uma linguagem cênica calcada em pesquisas próprias, que ela passou a chamar de
Teatro Essencial e que tem hoje diversos seguidores em todo o Brasil. Denise
revolucionou inclusive o trabalho do ator com sua proposta cênica.
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Com a dissertação de mestrado "O Mimo e a Mímica", Eduardo Coutinho, nos deu a primeira tese de mestrado sobre mímica em Língua Portuguesa. |
Existem outros nomes que não
estão sendo citados aqui; no entanto, o objetivo deste artigo é localizar os
artistas novos que estão buscando aprender mímica atualmente, para que tenham
uma noção elementar dos acontecimentos e acesso à informação. Neste artigo,
busco citar alguns dos principais personagens envolvidos no processo da mímica
no Brasil.
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Everton Ferre - Durante mais de 3 décadas,
uma referência absoluta no sul do Brasil. |
A passagem dos anos 1970 para os
de 1980 foi altamente prolífica para a arte do gesto no Brasil. Nesta época,
começaram a aparecer artistas argentinos, peruanos, colombianos e chilenos, por
aqui. Nestes países, a mímica vinha avançando e surgiram profissionais que
aproveitaram a abertura política brasileira de 1978 para experimentar a alegre
e participativa platéia brasileira.
Dois nomes que se destacaram no
sul do Brasil foram o peruano Jorge Acuña Razzuri, filho de Jorge Acuña, o
pioneiro da mímica no Peru; e o argentino Daniel Berbedés que atuou fortemente
também no sul do Brasil e teria encantado Everton Ferre que, posteriormente,
estudou com Jorge Acuña Razzuri.
Everton percorreu o caminho
contrário. Quando aprendeu a brilhante técnica de Jorge Acuña, resolveu
excursionar pelos países da América Latina, destacando-se em diversos festivais
e aprofundando seu conhecimento desta arte. Tornou-se um verdadeiro paladino,
ensinando sua técnica para centenas de jovens brasileiros e estrangeiros
gerando um número considerável de artistas que mergulharam na mímica pelos anos
90 afora.
São contemporâneos de Everton
Ferre nomes como Miquéias Paz, de Brasília; Eduardo Coutinho, de São Paulo;
Josué Soares, baiano radicado no Rio de Janeiro; Luiza Monteiro, também do Rio
de Janeiro; Lina do Carmo, Piauí; Cleber França, de São Paulo; Alberto Gaus,
também de São Paulo; Rolando Zwicker, de Santa Catarina; Denize Namura, de São
Paulo; Fernando Vieira, de São Paulo; Gabriel Guimard, São Paulo; Creso Filho,
de Vitória; Mauro Zanata, de Sta. Catarina, etc...
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Foto rara de 1995 registra a presença de diversos mímicos e entusiastas residentes no Rio de Janeiro, entre eles, Luisa Monteiro e Josué Soares. |
Josué Soares permanece com a
chama acesa e, na última conversa que tivemos (em 2004), ele disse que está
reativando o grupo “OS MIMOS”, uma ótima notícia. Melhor ainda foi ver, tempos
depois desta conversa, a circulação na internet do espetáculo “PICASSO”, que
fora montado na sua versão original pela Cia. Os Mimos e tem a direção de Josué
Soares.
Expectativa de futuro.
Uma nova geração de artistas
surgiu na virada dos anos 1980/90. Faço parte deste grupo ao lado de Álvaro
Assad, Duda de Olinda, Luis Louis, Marcya Harco e Patricia Carvalho, Ana
Teixeira, Paulo Trajano, Helena Figueira e o argentino Santiago Galassi, entre outros. Muitos
artistas da minha geração foram estudar nas escolas de Desmond Jones e Etiénne
Decroux. Mas também muitos mímicos seguiram o caminho do autodidatismo,
principalmente aqueles que permaneceram no Brasil, onde o aprendizado é
discipular e envolve horas de treinamento diretamente com os mestres. Este é o
meu caso, pois estudei diretamente com Everton Ferre, fazendo 3 anos depois um
aprimoramento com Luis de Lima.
Apesar de termos ótimos
profissionais, ainda não somos em quantidade suficiente e isto talvez esteja
ligado ao fato de a demanda ser muito pequena, pois nossas escolas de teatro
são ainda um pouco conservadoras e não adotaram nos seus currículos o ensino da
mímica como obrigatório para atores, e as exceções não são suficientes para
reverter a regra.
Toda regra, entretanto, tem
exceções e podemos dizer que a mímica já está bastante presente na Escola de
Teatro Martins Pena, através do professor Mário Mendes, que foi um dos
primeiros mímicos do Rio de Janeiro a fincar os pés em uma escola de teatro e
manter a continuidade do trabalho dentro do ambiente estudantil. Na USP, em São
Paulo, através de Eduardo Coutinho, existe um avançado estudo da arte do gesto.
Coutinho, aliás, é um dos mais estudiosos mímicos do Brasil, um respeitável
artista com vocação científica e que vem dando grande status à nossa
arte com sua ousada dedicação.
A CAL (Casa das Artes de
Laranjeiras), escola de teatro que atende praticamente aos jovens de classe
média do Rio de Janeiro, tem Ana Teixeira como professora de mímica corporal
dramática.
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Luis Louis e Victor de Seixas, investiram pesado na pedagogia para ajudar a mímica brasileira chegar ao século 21. |
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O grupo Etc e Tal é o que mais se destaca no Rio de Janeiro, com um trabalho de repertório que já completou duas décadas. |
O Centro de Estudos do Movimento,
no Rio de Janeiro, conhecido como Escola Angel Vianna, tem na figura de Paulo
Trajano, a representação da mímica dentro do estabelecimento. Evidentemente que
deva existir outras escolas espalhadas pelo Brasil adotando a mímica em sua
grade curricular, mas desconheço sua existência.
A Escola Macunaíma, de Antunes
Filho, foi uma das primeiras do Brasil a adotar a mímica em sua grade
curricular.
Vale a pena destacar o brilhante
trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Solar da Mímica, escola situada no
interior de São Paulo, que tem
se dedicado ao ensino da mímica e vem a cada ano
fixando seu espaço no cenário artístico nacional. Muitos jovens já estiveram no
Solar da Mímica, que vem se tornando uma verdadeira lenda no teatro atualmente.
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Duda de Olinda, geração 90 |
Em Curitiba, Mauro Zanata criou a
“Escola do Ator Cômico”, onde a mímica é uma disciplina obrigatória. Um
trabalho que merece estar neste artigo.
Tenho atualmente 4 pessoas no
Brasil que aprenderam comigo (discipularmente) a técnica e o repertório que
aprendi com Everton Ferre, são eles: Denise Wal (SP) e que atualmente está no
Cirqe du Soleil, no Canadá, trabalhando seus números aéreos de circo, portanto,
não mais envolvida com a mímica; José Maria Lopes Borges (Amapá), Julio
Hernandes (Baurú-SP) e Sérgio Bicudo (Amazonas).
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Miqueias Paz, criou uma importante mostra em Brasília, e já se dedica à mímica ha 30 anos. |
A mímica vive atualmente um
momento muito delicado de sua história no Brasil. Nunca houve um reconhecimento
oficial da grandeza de Ricardo Bandeira e Luis de Lima embora, é claro, os
artistas de teatro nunca os tivessem ignorado. Mas a contra-informação de
bastidores, sobre o trabalho dos mímicos, confunde a cabeça dos jovens atores que
acabam caindo num discurso anacrônico sobre o trabalho metódico dos mímicos
brasileiros, considerando-os repetitivos e sem imaginação; sem dúvida, uma
estratégia “elitizada” e “europeizada”, que impede os jovens de enxergarem a
montanha toda, ao invés de só os seus arbustos.
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Marcya Harco, geração 90 |
Os mímicos que mais sofrem com
esta falsa argumentação por parte de alguns setores da "classe"
artística são os pantomimos que, ignorados em suas pesquisas, são
tratados injustamente como clones de Marcel Marceau, como se o único pantomimo
do mundo fosse Marceau. A pantomima existe há mais de 2.500 anos, desde a
Grécia antiga e, embora o estilo de Marceau seja moderno, construído ao longo
do século XX, os pantomimos sempre existiram no mundo. Sempre houve na história
do teatro, artistas que faziam e fazem pantomima independentemente da
existência de Marcel Marceau.
Vivemos em uma sociedade de
"cânones": ou você é canonizado pela mídia televisiva ou pelo poder
acadêmico. O teatro é massacrado pelos dois lados e os pantomimos, frágeis figuras
dentro de todo este processo, acabam ignorados e vivendo um certo abandono
dentro dos ambientes "consagrados"!
As escolas de mímica em todo o
mundo são bastante divergentes entre si, mas todas reconhecem a grandeza de um
grande mestre: Etienne Decroux, que foi mestre do Marcel Marceau e do Luiz de
Lima e que hoje é a fonte segura da mais genuína pesquisa para uma mímica do
terceiro milênio. Há no Rio de Janeiro, a Srtª Ana Teixeira, que é
uma pessoa credenciada para falar da técnica de "mímica corporal
dramática", interpretação genuína do grande mestre francês que passou mais
de 70 anos pesquisando a arte do gesto, imprimindo a ela um forte rigor de
pesquisa e investigação.
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Alberto Gaus e Vanderli, dedicação ao Solar da Mímica duas décadas contribuindo para formar novos artistas. |
Posso citar nesta entrevista
também a figura de Paulo Trajano que tem uma formação semelhante a Ana Teixeira
e dedica-se ao ensino da técnica de mímica corporal dramática do mestre Etiénne
Decroux.
Fernando Vieira, dominou a cena mímicadurante a década de 90. |
Penso que o conservadorismo, por
parte das escolas de teatro, deixa o ator antimímico sem o recurso corporal e
reflexivo necessário para se construir uma boa cena. Tornando-os burocráticos e
friamente técnicos, excessivamente “sonoros”, porém sem “ressonância” no
palco. Acredito que a mímica seja fundamental para o desenvolvimento de um
ator total. O que, talvez, torne difícil a aproximação do espectador com esta
forma de arte é que nós, os mímicos, carregamos conosco uma espécie de
“maldição” porque deixamos nossa arte envolta numa aura de “mistérios” e
preservamos um certo "segredo", que vem da visão individualista e
classista européia, diferentemente da visão dos brasileiros que se pretende
mais coletiva se acionada com vigor.
Tenho grandes esperanças na arte da mímica. Acho um luxo para o Brasil termos nomes tão significativos nesta arte fazendo bonito dentro e fora do país. Você, amigo leitor, não tem idéia do que é um espetáculo do Everton Ferre ao vivo, ou do Fernando Vieira, do Luis Louis, do Josué Soares. A capacidade de emocionar através do gesto é o que faz da mímica uma das artes de primeira linha em diversos países do mundo. Não é à toa que podemos senti-la nos passos do Michael Jackson, nas interpretações de atores como Robin Wiliams, Jimi Carey e tantos outros do cinema americano e nacional. A Mímica influenciou fortemente o Hip Hop, as danças de rua e a Dança Contemporânea. Nos países Orientais a mímica tem status de arte principal e os mímicos são muito respeitados e amados por crianças, mulheres e homens. É uma arte que tem muito a dar à humanidade e que tem no Brasil alguns de seus principais intérpretes no mundo do espetáculo contemporâneo.
Jiddu Saldanha - Junho de 2004
Revisão – João de Abreu Borges
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