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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Protagonismo mímico em Brasília - uma mostra inesquecível.

A Segunda Mostra Internacional de Mímica de Brasília foi simplesmente magnífica, palavras são poucas para expressar a importância que este evento tem para o Brasil de hoje. Uma emoção incrível  ver mímicos da terceira geração brasileira juntos com novos personagens que estão aparecendo a contribuindo para pavimentar este “misterioso” caminho da arte do gesto. Além da bela e profunda conexão com os mímicos europeus e hermanos de todas as Américas. A mímica, uma arte incrível e que agora encontrou sua máxima interlocução na mostra de Brasília, onde reside o mímico idealizador e curador, Miqueias Paz;  junto com um time de primeira, a produtora Matéria Prima deu um salto ousado ao conseguir convencer as bancas de editais a darem à arte da mímica, o protagonismo merecido!

Reunir mímicos, produtores e realizadores, juntos, num mesmo ideal: Protagonizar a arte da mímica perante o público brasileiro, em especial, o caloroso público das cidades de Brasília e Taguatinga, no planalto central.


Uma produção perfeita, organizada, dando ao artista mímico o mesmo tratamento de todos os grandes festivais de artes do Brasil. Hotel de qualidade, comida boa, tratamento igualitário para todos, estafe técnico, respeito ao trabalho de cada um, cumprimento integral de todas as clausulas contratuais, realmente, uma mostra que merece se repetir e continuar ajudando a colocar os mímicos do Brasil e do mundo, na evidência da cena teatral ultratual.

A simbologia presente e Real.

Na mostra internacional de Brasília, um acontecimento inédito: artistas, empresários, familiares e  público em geral, prestigiaram a emocionante homenagem a Miqueias Paz, que comemorou 30 anos de sua história como mímico. Depois de muitas viagens pelo mundo e de encantar o Brasil com seu trabalho original, ele e a cidade de Brasília definitivamente, encontraram num, o sorriso do outro, e os brasilienses caíram a seus pés. 
Entre tantas homenagens, um bolo de aniversário com uma réplica de sua figura, compartilhado com o brilho das mãos do artista que, na mesma noite, viveu a emoção de ver seu filho, Abder Paz, também mímico, saudá-lo com uma bela performance, naquele momento, era como se todo o público o agradecesse pelos anos de alegria e reflexão que trouxera para o imaginário da suntuosa e ao mesmo tempo, jovem capital brasileira.
O reconhecimento do público é quase que algo inédito na arte da mímica no Brasil, onde os artistas deste gênero, são obrigados a driblar a ignorância pedagógica em relação à prática desta forma de arte teatral, a dificuldade de colocar o discurso, no contexto da arte em geral, vem do fato que, talvez, o Brasil ainda não se pensou em sua potencialidade mímica, mas, sem dúvida, Miquéias Paz é um desses artistas que trabalha muito, divulgando e promovendo o ofício em si, mas do que a si mesmo.

A Terceira Geração de Mímicos:

Abder Paz, possibilidade de permanência de uma quarta
geração de mímicos no Brasil!
Tecnicamente, a primeira geração de mímicos do Brasil é formada por Ricardo Bandeira e Luis de Lima (anos 40/50), os mímicos presentes no festival de Brasília, quase todos são da Terceira geração (começaram a trabalhar na década de 80), incluindo Miqueias Paz, uma forma simbólica já que não temos um estudo sério feito sobre esse assunto. Nossos principais estudos de mímica em língua portuguesa brasileira, destacam as técnicas contextualizadas a partir de parâmetro sugeridos por dois grandes mestres desta arte divulgados no Brasil: Marcel Marceau e Étienne  Decroux.
O Surgimento de uma quarta geração já está se anunciando no horizonte, artistas que ainda não chegaram aos 30 anos de idade, com boa formação, muitos já superando definitivamente a lamentável  “rivalidade” entre as escolas. No Brasil, o que se pode ver é uma convergência de artistas que estão cada vez mais se engajando na prática da mímica e trazendo a discussão para o campo das possibilidades coletivas ao invés de “vaidades” e “picuinhas”, resquício de nossa eterna subserviência ao cânone europeu.
A experiência da mímica no Brasil, e agora, recentemente na mostra de Brasília, aponta para uma tendência onde as inúmeras possibilidades começam a ganhar corpo.  Tornando possível a reorganização e a busca de melhores inserções no mercado.

SERÁ QUE CONSEGUIREMOS? VAMOS AGUARDAR AS CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

II MOSTRA INTERNACIONAL DE MÍMICA

Mostra celebra os 30 anos de carreira de Miquéias Paz e traz mímicos de várias partes do Brasil e do mundo para apresentações no Teatro Funarte Plínio Marcos e no SESI Taguatinga.

ATENÇÃO: Esta matéria foi cedida pela Matéria Prima Produções, responsável pelo evento. 



Teatro Funarte Plínio Marcos e o SESI Taguatinga recebem, entre os dias 17 e 26 de maio, uma onda de espetáculos ensurdecedores. É a II Mostra Internacional de Mímica que traz ao Distrito Federal 14 espetáculos do gênero. Após o emocionante sucesso da I Mostra Internacional de Mímica realizada em 2012, quando milhares de pessoas se deliciaram com variadas formas de fazer mímica. A iniciativa busca investigar o desenvolvimento dos diversos modos de se expressar através da mímica.

Clássico? Contemporâneo? Erudito? Tradicional? Dramático? Cômico? Teatro? O que é exatamente essa linguagem? Mais uma vez, o intuito da organização da mostra é de ampliar o repertório e outras referências do público por meio da oferta de espetáculos do gênero. 

Miquéias Paz, curador da mostra, e que completa este ano 30 anos de carreira, explica que "a mímica teatral está hoje muito além do silêncio como seu pilar principal. A dramaturgia tem sido nossa parceira fundamental nas criações". Nesta mostra busca-se observar a tradição e as novas possibilidades que interferem nessa tradição, permitindo sua continuidade, buscando criar diálogo entre as diversas modalidades da mímica. "Alguns de nós a exemplo do fabuloso Jomi, que utilizou de sua surdez para produzir arte, desfila ternura sob as luzes da ribalta seguindo os passos do grande Marcel Marceau.

Mímicos paulistas, goianos, cariocas, baianos, brasilienses, colombianos, argentinos, franceses, alemães e espanhóis colocam na mesa, ou melhor nos palcos, variadas formas e inquietações da milenar e envolvente forma de atuação teatral.

AS ATRAÇÕES 
A novidade da edição deste ano é a presença de artistas europeus. A Cia. Punto Clown, da Espanha, e o mundialmente reconhecido Jomi - Josef Michael Kreutzer, da Alemanha, se apresentam na capital pela primeira vez.

Tanto Jomi quanto a Cia. Punto Clown trazem em seu repertório o estilo de mímica Pantomima, caracterizada pela figura de rosto pintado de branco e luvas, que comunica-se por meio de gestos ilustrativos desenhados no espaço.
  
De outros países da América Latina, teremos novamente o versátil Jader Clown, da Colômbia, que no ano passado envolveu e divertiu o público com suas desafiantes técnicas de mímicas e palhaçadas, e Daniel Quiroga, da Argentina.

Outras atrações que voltam à II Mostra Internacional de Mímica são: Jiddu Saldanha, do Rio de Janeiro, com sua maneira simples, direta e envolvente de fazer mímica, e Luis Louis, de São Paulo, com sua abordagem intensa das fronteiras da fala e do gesto. Goiânia é representada na série pela fabulosa companhia Teatro Ritual (que participou da primeira edição e volta com novo espetáculo) e pelo grupo Bastet estreante nesta segunda edição. 

Ainda de São Paulo, o evento traz este ano um dos mais respeitados mímicos brasileiros contemporâneos, Victor de Seixas, além de Albeto Gaus e Vanderli Santos da Cia Solar da Mímica. Outros artistas a se apresentarem serão Miquéias Paz, curador da mostra e primeiro mímico do Distrito Federal, que celebra seus 30 anos de atuação na área, e a Mimus - Companhia de Teatro, da Bahia.

Esse mosaico de artistas que compõem a II Mostra Internacional de Mímica expõe a riqueza dessa arte iniciada na rua. O público descobrirá que essa linguagem artística associada ao silêncio, é muito mais que isso, tendo evoluído mundialmente em sua diversas modalidades.

Espaço mimo - Outra novidade da segunda edição da Mostra Internacional de Mímica é o Espaço Mimo. É um espaço de convivência onde, público, criadores e interessados na arte da pantomima poderão trocar experiências com os artistas que compõem a mostra. Neste local haverá uma área de alimentação, DJs e diversas atividades para o público que poderá aguardar o início dos espetáculos em uma área pensada especialmente para agregar todos os participantes da mostra.

II Encontro Internacional de Mímicos - No dia 21 de maio, às 20h, no Espaço Mimo, a Mostra promove um encontro entre os mímicos participantes e estudantes de artes cênicas de instituições de ensino superior do Distrito Federal. O objetivo do encontro é discutir as perspectivas, a estética e os novos rumos da mímica contemporânea. Participam do encontro Miqueias Paz (DF), Jader Clown (Colômbia), A Mimus - Companhia de Teatro (BA), Jiddu Saldanha (RJ) e Victor de Seixas (SP). 

ATENÇÃO: Esta matéria foi cedida pela Matéria Prima Produções, responsável pelo evento. 


Copie e divulgue a programação completa.


VEJA O VÍDEO DA MOSTRA ANTERIOR - 2011



quinta-feira, 18 de abril de 2013

20 Anos em 2 meses! Etc. e Tal, maio e junho, no Teatro Municipal do Jockey.

Durante os meses de maio e junho, o grupo Etc. e Tal estará em cartaz no teatro do Jockey, no Rio de Janeiro. É a mímica conquistando espaços nobres.

20 anos depois de sua fundação, o  “Centro Teatral e Etc. e Tal” coleciona prêmios, viagens e projetos realizados em diversas cidades brasileiras e exterior;  constituindo-se num verdadeiro orgulhos para o teatro de mímica no Brasil. Isso mesmo! 

Imprima o flyer e confira a programação!

Formado pelos artistas Marcio Moura, Melissa Teles Lôbo e Álvaro Assad, tem como sua principal prática, a construção dramática elaborada na técnica da mímica teatral.
Hoje, eles contam com uma gama de colaboradores e profissionais no Rio de Janeiro e demais estados e, com certeza,  não foi fácil chegar onde chegaram. Ousamos dizer que foi, no mínimo, bem divertido pois, nenhum ator se diverte tanto, na cena e com a platéia, quanto aquele que faz mímica... 
Nós, do projeto “Mímica Maravilhosa”, saudamos este excelente grupo, orgulho da arte pela qual, acreditamos, vale a pena continuar lutando e investindo. Somente quem ama verdadeiramente esta arte, consegue reunir forças e capacidade para romper com as estruturas e mostrar algo diferenciado na qualidade e estilo! Evoé, Etc. e Tal...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

MÍMICA, O QUE É ISSO?

Comecei a fazer mímica em 1988 e a partir de 1995 iniciei uma pesquisa sobre a ação de outros mímicos pelo Brasil a fora. Este texto foi escrito a partir de especulações intuitivas e conversas com artistas ligados ao teatro gestual brasileiro e internacional.
22 anos depois de ter iniciado minha carreira nesta arte, um painel de artistas interessantes e diferenciados foi se delineando e vi a necessidade de contar, da minha maneira, esta história que, espero, contribua para a informação dos mais jovens.
Desde Luis de Lima e Ricardo Bandeira, a mímica iniciou uma grande aventura estética e política, para se afirmar como arte no Brasil. Agora, com muitos passos dados e caminhos conquistados, resta estender o olhar para o futuro desta arte.


Três gerações da mímica. Eduardo Coutinho (esquerda)
Vinícius Della Líbera(Centro) Jiddu Saldanha (direita).
Reflexões sobre a história esquecida dos mímicos brasileiros.
- por Jiddu Saldanha /junho - 2004

A mímica tem essa coisa atávica, porque faz parte da vida humana. Somos seres gestuais, antes de qualquer coisa. Dizemos o que queremos com olhos, boca e mãos sem precisar pronunciar palavras.
Na arte da mímica em si, tudo vira metáfora pois, através da pantomima, pode-se dizer coisas que chegam às pessoas por vias sutis e vão, aos poucos, revelando uma teia de acontecimentos na sensibilidade de quem se coloca para os mistérios e as novidades da arte.
Mímicos como Josué Soares, Fernando Vieira e Cleber França nos transportam para uma estrutura cênica pela qual se configura a arte do gesto. O mímico precisa preservar seu lado criança evitando, assim, a lógica estrutural do mundo adulto que sempre formaliza os resultados. Precisamos de um certo “acidente de percurso" para entender, de fato, as nuances de nossa arte e executá-la, até ir se instalando na sensibilidade do mundo interior do expectador.
Uma colagem virtual feita por Vinícius Della Líbera, em 2005, mostra
a gama de mímicos brasileiros atuantes entre a década de 80 até por
volta de 2005. 
Eu tenho muita fé na arte da mímica. Acredito que é uma forma de expressão que vale a pena ser vivenciada em todos os seus aspectos. Estamos avançando, e vamos dar a volta por cima em relação ao que acontece hoje no Brasil. Esta falta de foco que todo o país atravessa, esta falta de reconhecimento para um dos mais belos aspectos da história de nosso teatro. Os mímicos estão revestidos de uma história plena de resultados e não são poucas as histórias que podemos contar a respeito de nossos feitos por este país afora.
A mímica tem como foco o corpo total do ator e o imaginário da platéia. Para nós a fala pode ser lida como gesto, porque o contexto e as intenções são outras, que não as do teatro tradicional que é literário e falado. O mímico se locomove num universo de silêncio (se for clássico) e pode se apropriar do mundo sonoro, das onomatopéias (se for contemporâneo), fazendo ponte com o fundo musical. Existem visões dissonantes entre o que pode ser um teatro gestual e um teatro de mímica, os contextos variam e os resultados conseguidos por atores são infinitos, dada a riqueza desta forma de expressão.
O Brasil tem dois grandes mestres nesta arte, que podemos considerar nossos pioneiros: Luis de Lima e Ricardo Bandeira. Foram eles que deram origem à genealogia da mímica no Brasil.
Baluartes da mímica no Brasil!
Luis de Lima (falecido em 2002) nasceu em Portugal e veio para o Brasil tornando-se, desde a década de 1950 uma referência nesta arte. Ele foi um Intelectual que estudou mímica com os mestres franceses, tornando-se, inclusive, amigo pessoal do grandioso Etiénne Decroux, considerado o maior mestre contemporâneo desta arte. Depois de um certo período, Luis de Lima passou a dedicar-se ao teatro literário, tornando-se tradutor e intérprete de autores como Yonesco, entre outros. Além de destacar-se no teatro, ele dedicou-se também ao cinema e televisão. Durante seus últimos anos, revezava seu trabalho artístico com oficina de iniciação à arte da mímica, que ele nunca deixou de divulgar na mídia que o cercou.
Ricardo Bandeira (falecido em 1995) era carioca e construiu a maior parte de sua carreira em São Paulo. Tinha uma visão orgânica do teatro. Era autodidata, uma espécie de batalhador e um romântico, engajado
Vicentini Gomes, herdeiro de uma linhagem genuinamente
brasileira! Conviveu com os grandes mestres da mímica e
ajudou a pavimentar o caminho.
na causa do comunismo. Viveu de mímica uma boa parte de sua vida e também se dedicou ao cinema, ao teatro tradicional e à literatura. Ricardo Bandeira morreu um pouco esquecido, deixando uma imensa obra e muitos admiradores. Três dos grandes mímicos brasileiros cruzaram pelo seu caminho: Cleber França, Duda de Olinda e Alberto Gaus. Sabe-se que Ricardo Bandeira foi uma fonte de inesgotável inspiração para quase todos os mímicos de São Paulo.

A Corrente Intermediária.
Após o trabalho duro de Luis de Lima e Ricardo Bandeira, surgiu uma sucessão de nomes que foram mais ou menos contemporâneos, iniciando um processo de multiplicação de artistas gestuais através de seus trabalhos e suas pesquisas.
Lina do Carmo, uma vasta
 experiênciana Europa
a partir dos anos 80.
São eles: Vicentini Gomez, Luis Otávio Burnier, Paulo Yutaka, Denise Stoklos e Lina do Carmo.
Vicentini Gómez -  Foi, durante a década de 1970 até meados dos anos 1990 um incansável trabalhador nos palcos brasileiros, sendo vocacionado para a  arte da mímica teatral. Vicentini era e é um excelente produtor, levando seu repertório de espetáculos solos a diversas cidades brasileiras e outros países atingindo sucesso de público e crítica, conseguindo importantes inserções na mídia brasileira. Diversos atores fizeram contato com Vicentini  e aprenderam com ele a técnica que aprendera com Ricardo Bandeira.
Luis Otávio Burnier – Burnier teve sua formação na França e estudou com Etiénne Decroux, o mestre maior da mímica. Aprofundou-se no conhecimento da mímica corporal dramática e de volta ao Brasil fundou o núcleo de pesquisa teatral LUME da UNICAMP, onde iniciou a pesquisa da “mimésis corpórea” que poderíamos chamar de um investimento técnico-científico na gestualidade cultural brasileira.
Paulo Yutaka – Foi um dos grandes performer’s de São Paulo, tendo influenciado muitos artistas que, ao assistirem suas performances, acabaram abraçando a carreira da arte da mímica. Ele investiu numa carreira séria e fez ótimos espetáculos, inclusive tendo dirigido diversas peças de teatro.
Cleber França, discípulo assumido
de Ricardo Bandeira.
Denise Stoklos – O talento de Denise Stoklos e, sobretudo, seu altíssimo nível intelectual fez dela uma performer de destaque em toda a década de 1980/90 e atualmente. Denise foi, talvez, o maior acontecimento do teatro brasileiro deste período. Ela foi aprender mímica na Inglaterra com Desmond Jones e depois evoluiu para uma linguagem cênica calcada em pesquisas próprias, que ela passou a chamar de Teatro Essencial e que tem hoje diversos seguidores em todo o Brasil. Denise revolucionou  inclusive o trabalho do ator com sua proposta cênica.
Com a dissertação de mestrado "O Mimo e a Mímica",
Eduardo Coutinho, nos deu a primeira tese de mestrado
sobre mímica em Língua Portuguesa.
Lina do Carmo – Fortalecendo o time de mulheres que elevaram o nível técnico e prático da mímica teatral, Lina do Carmo aprofundou-se nos estudos com Marcel Marceau tornando-se sua assistente até voltar-se totalmente para sua própria linguagem  mergulhando profundamente na arte e investigação do corpo como forma de linguagem artística, evoluindo para uma linguagem que transcende o gesto. Ela encontrou as mais difusas escolas corporais da Europa e se afirmou com um trabalho onde a mímica atinge forte presença.
Existem outros nomes que não estão sendo citados aqui; no entanto, o objetivo deste artigo é localizar os artistas novos que estão buscando aprender mímica atualmente, para que tenham uma noção elementar dos acontecimentos e acesso à informação. Neste artigo, busco citar alguns dos principais personagens envolvidos no processo da mímica no Brasil.

Everton Ferre - Durante mais de 3 décadas,
uma referência absoluta no sul do Brasil.
O Ritual de Passagem.
A passagem dos anos 1970 para os de 1980 foi altamente prolífica para a arte do gesto no Brasil. Nesta época, começaram a aparecer artistas argentinos, peruanos, colombianos e chilenos, por aqui. Nestes países, a mímica vinha avançando e surgiram profissionais que aproveitaram a abertura política brasileira de 1978 para experimentar a alegre e participativa platéia brasileira.
Dois nomes que se destacaram no sul do Brasil foram o peruano Jorge Acuña Razzuri, filho de Jorge Acuña, o pioneiro da mímica no Peru; e o argentino Daniel Berbedés que atuou fortemente também no sul do Brasil e teria encantado Everton Ferre que, posteriormente, estudou com Jorge Acuña Razzuri.
Everton percorreu o caminho contrário. Quando aprendeu a brilhante técnica de Jorge Acuña, resolveu excursionar pelos países da América Latina, destacando-se em diversos festivais e aprofundando seu conhecimento desta arte. Tornou-se um verdadeiro paladino, ensinando sua técnica para centenas de jovens brasileiros e estrangeiros gerando um número considerável de artistas que mergulharam na mímica pelos anos 90 afora.
São contemporâneos de Everton Ferre nomes como Miquéias Paz, de Brasília; Eduardo Coutinho, de São Paulo; Josué Soares, baiano radicado no Rio de Janeiro; Luiza Monteiro, também do Rio de Janeiro; Lina do Carmo, Piauí; Cleber França, de São Paulo; Alberto Gaus, também de São Paulo; Rolando Zwicker, de Santa Catarina; Denize Namura, de São Paulo; Fernando Vieira, de São Paulo; Gabriel Guimard, São Paulo; Creso Filho, de Vitória; Mauro Zanata, de Sta. Catarina, etc...
Foto rara de 1995 registra a presença de diversos mímicos
e entusiastas residentes no Rio de Janeiro, entre eles, Luisa
Monteiro e Josué Soares.
No Rio de Janeiro, o mímico Josué Soares foi um dos destaques da década de 1980 com Luiza Monteiro quando, juntos com Creso Filho, fundaram o grupo “Mimotropical” que cobriu a primeira metade da década dando espaço para o grupo “Os Mimos”, que surgiu após a dissolvição do Mimotropical, e foi o grupo dominante até a metade dos anos 1990. No grupo “OS MIMOS” revelaram-se talentos como Toninho Lobo, de Minas Gerais, Suzana Fuentes, do Rio de Janeiro, e Aníbal Sá, também do Rio de Janeiro. Mais tarde, o grupo passou a funcionar com novos artistas e a sua última formação contava com o mímico Alex- Sandro e Márcio Machado, ambos já falecidos e, também, a participação esporádica de Mário Fiorim Neto.
Josué Soares permanece com a chama acesa e, na última conversa que tivemos (em 2004), ele disse que está reativando o grupo “OS MIMOS”, uma ótima notícia. Melhor ainda foi ver, tempos depois desta conversa, a circulação na internet do espetáculo “PICASSO”, que fora montado na sua versão original pela Cia. Os Mimos e tem a direção de Josué Soares.
Josué Soares, principal nome do Rio de Janeiro, herdeiro
direto do Mimotropical.
Expectativa de futuro.
Uma nova geração de artistas surgiu na virada dos anos 1980/90. Faço parte deste grupo ao lado de Álvaro Assad, Duda de Olinda, Luis Louis, Marcya Harco e Patricia Carvalho, Ana Teixeira, Paulo Trajano, Helena Figueira e o argentino Santiago Galassi, entre outros. Muitos artistas da minha geração foram estudar nas escolas de Desmond Jones e Etiénne Decroux. Mas também muitos mímicos seguiram o caminho do autodidatismo, principalmente aqueles que permaneceram no Brasil, onde o aprendizado é discipular e envolve horas de treinamento diretamente com os mestres. Este é o meu caso, pois estudei diretamente com Everton Ferre, fazendo 3 anos depois um aprimoramento com Luis de Lima.
Apesar de termos ótimos profissionais, ainda não somos em quantidade suficiente e isto talvez esteja ligado ao fato de a demanda ser muito pequena, pois nossas escolas de teatro são ainda um pouco conservadoras e não adotaram nos seus currículos o ensino da mímica como obrigatório para atores, e as exceções não são suficientes para reverter a regra.

Luis Louis e Victor de Seixas, investiram pesado na pedagogia para ajudar
a mímica brasileira chegar ao século 21.
Toda regra, entretanto, tem exceções e podemos dizer que a mímica já está bastante presente na Escola de Teatro Martins Pena, através do professor Mário Mendes, que foi um dos primeiros mímicos do Rio de Janeiro a fincar os pés em uma escola de teatro e manter a continuidade do trabalho dentro do ambiente estudantil. Na USP, em São Paulo, através de Eduardo Coutinho, existe um avançado estudo da arte do gesto. Coutinho, aliás, é um dos mais estudiosos mímicos do Brasil, um respeitável artista com vocação científica e que vem dando grande status à nossa arte com sua ousada dedicação.
O grupo Etc e Tal é o que mais se destaca no Rio de Janeiro,
com um trabalho de repertório que já completou duas décadas.
A CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), escola de teatro que atende praticamente aos jovens de classe média do Rio de Janeiro, tem Ana Teixeira como professora de mímica corporal dramática.
O Centro de Estudos do Movimento, no Rio de Janeiro, conhecido como Escola Angel Vianna, tem na figura de Paulo Trajano, a representação da mímica dentro do estabelecimento. Evidentemente que deva existir outras escolas espalhadas pelo Brasil adotando a mímica em sua grade curricular, mas desconheço sua existência.
A Escola Macunaíma, de Antunes Filho, foi uma das primeiras do Brasil a adotar a mímica em sua grade curricular.
Vale a pena destacar o brilhante trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Solar da Mímica, escola situada no interior de São Paulo, que tem
Duda de Olinda, geração 90
se dedicado ao ensino da mímica e vem a cada ano fixando seu espaço no cenário artístico nacional. Muitos jovens já estiveram no Solar da Mímica, que vem se tornando uma verdadeira lenda no teatro atualmente.
Em Curitiba, Mauro Zanata criou a “Escola do Ator Cômico”, onde a mímica é uma disciplina obrigatória. Um trabalho que merece estar neste artigo.
Tenho atualmente 4 pessoas no Brasil que aprenderam comigo (discipularmente) a técnica e o repertório que aprendi com Everton Ferre, são eles: Denise Wal (SP) e que atualmente está no Cirqe du Soleil, no Canadá, trabalhando seus números aéreos de circo, portanto, não mais envolvida com a mímica; José Maria Lopes Borges (Amapá), Julio Hernandes (Baurú-SP) e Sérgio Bicudo (Amazonas).
Miqueias Paz, criou uma importante mostra em Brasília, e já se dedica à
mímica ha 30 anos.
Também influenciei, num certo sentido, o mímico Mário Fiorin Neto e, certamente, Álvaro Assad que, embora tenha técnica bem diferenciada da minha, não podemos negar que fomos afetados um pelo estilo do outro, durante o período em que trabalhamos juntos formando uma dupla de mímicos entre 1992 e 1994.
A mímica vive atualmente um momento muito delicado de sua história no Brasil. Nunca houve um reconhecimento oficial da grandeza de Ricardo Bandeira e Luis de Lima embora, é claro, os artistas de teatro nunca os tivessem ignorado. Mas a contra-informação de bastidores, sobre o trabalho dos mímicos, confunde a cabeça dos jovens atores que acabam caindo num discurso anacrônico sobre o trabalho metódico dos mímicos brasileiros, considerando-os repetitivos e sem imaginação; sem dúvida, uma estratégia “elitizada” e “europeizada”, que impede os jovens de enxergarem a montanha toda, ao invés de só os seus arbustos.
Marcya Harco, geração 90
Os mímicos que mais sofrem com esta falsa argumentação por parte de alguns setores da "classe" artística são os pantomimos que, ignorados em suas pesquisas, são tratados injustamente como clones de Marcel Marceau, como se o único pantomimo do mundo fosse Marceau. A pantomima existe há mais de 2.500 anos, desde a Grécia antiga e, embora o estilo de Marceau seja moderno, construído ao longo do século XX, os pantomimos sempre existiram no mundo. Sempre houve na história do teatro, artistas que faziam e fazem pantomima independentemente da existência de Marcel Marceau.
Vivemos em uma sociedade de "cânones": ou você é canonizado pela mídia televisiva ou pelo poder acadêmico. O teatro é massacrado pelos dois lados e os pantomimos, frágeis figuras dentro de todo este processo, acabam ignorados e vivendo um certo abandono dentro dos ambientes "consagrados"!
As escolas de mímica em todo o mundo são bastante divergentes entre si, mas todas reconhecem a grandeza de um grande mestre: Etienne Decroux, que foi mestre do Marcel Marceau e do Luiz de Lima e que hoje é a fonte segura da mais genuína pesquisa para uma mímica do terceiro milênio. Há no Rio de Janeiro, a Srtª  Ana Teixeira, que é uma pessoa credenciada para falar da técnica de "mímica corporal dramática", interpretação genuína do grande mestre francês que passou mais de 70 anos pesquisando a arte do gesto, imprimindo a ela um forte rigor de pesquisa e investigação.
Alberto Gaus e Vanderli, dedicação ao Solar da Mímica
duas décadas contribuindo para formar novos artistas.
Posso citar nesta entrevista também a figura de Paulo Trajano que tem uma formação semelhante a Ana Teixeira e dedica-se ao ensino da técnica de mímica corporal dramática do mestre Etiénne Decroux.
Fernando Vieira, dominou
a cena mímicadurante a
década de 90.
As pesquisas de Etiénne Decroux encontraram ressonância, recompensando assim seus longos anos de estudo, pesquisa e desenvolvimento da mímica corporal e, hoje, jovens do mundo todo estão descobrindo sua técnica e buscando-a vigorosamente. No entanto, o ensino da pantomima por parte de mímicos mais intuitivos, tem prestado um serviço primordial para despertar o talento nos jovens. Quando um jovem ator aprende técnicas de encenação gestual, e coloca em prática um repertório apreendido de solos gestuais, vai encontrando, aos poucos, a revelação da arte do gesto em todas as suas nuances. Isto aconteceu com o jovem ator Victor Seixas que, depois de ter sido iniciado em uma de minhas oficinas de 1992, nunca mais parou de estudar e, tendo esgotado as possibilidades de estudos no Brasil, foi estudar na escola de Mímica Corporal Dramática, que antes era em Paris e agora está situada em Londres. Posso dizer, orgulhoso, que Victor Seixas já me superou em todos os sentidos, mas foram as simples aulas de pantomima e iniciação gestual que o despertaram para o sacerdócio da arte do ator.

A "I Mostra Internacional de Mímica de Brasília" bateu todos os recordes nacionais nesta arte. Incluiu mímicos e
pantomimos num mesmo evento e lotou o teatro Plínio Marcos durante 7 dias com duas cessões diárias. Nunca a Arte
da Mímica tivera tanto prestígio junto ao grande público.
Penso que o conservadorismo, por parte das escolas de teatro, deixa o ator antimímico sem o recurso corporal e reflexivo necessário para se construir uma boa cena. Tornando-os burocráticos e friamente técnicos, excessivamente “sonoros”, porém sem “ressonância” no palco. Acredito que a mímica seja fundamental para o desenvolvimento de um ator total. O que, talvez, torne difícil a aproximação do espectador com esta forma de arte é que nós, os mímicos, carregamos conosco uma espécie de “maldição” porque deixamos nossa arte envolta numa aura de “mistérios” e preservamos um certo "segredo", que vem da visão individualista e classista européia, diferentemente da visão dos brasileiros que se pretende mais coletiva se acionada com vigor.


Tenho grandes esperanças na arte da mímica. Acho um luxo para o Brasil termos nomes tão significativos nesta arte fazendo bonito dentro e fora do país. Você, amigo leitor, não tem idéia do que é um espetáculo do Everton Ferre ao vivo, ou do Fernando Vieira, do Luis Louis, do Josué Soares. A capacidade de emocionar através do gesto é o que faz da mímica uma das artes de primeira linha em diversos países do mundo. Não é à toa que podemos senti-la nos passos do Michael Jackson, nas interpretações de atores como Robin Wiliams, Jimi Carey e tantos outros do cinema americano e nacional. A Mímica influenciou fortemente o Hip Hop, as danças de rua e a Dança Contemporânea. Nos países Orientais a mímica tem status de arte principal e os mímicos são muito respeitados e amados por crianças, mulheres e homens. É uma arte que tem muito a dar à humanidade e que tem no Brasil alguns de seus principais intérpretes no mundo do espetáculo contemporâneo.

Jiddu Saldanha - Junho de 2004
Revisão – João de Abreu Borges

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Riqueza compartilhada - CRÔNICA

Jiddu em performance no parque
Terra Encantada - RJ - 1997

Num exame de consciência sobre meus 30 anos de teatro,  22 como mímico;  11 como contador de histórias e uma vida devotada à arte, do meu jeito, deparei-me com diversas reminiscências. Lembrei dos momentos de sucesso, dos amores, das salas vazias, do público amigo e dos momentos de invisibilidade, rompidos, agora, com o manejo da internet. Lembrei dos sonhos frustrados, das promessas que não se cumpriram, das possíveis “traições”; Lembrei também dos momentos antológicos: os rostos que vi nas plateias que me prestigiaram e lembrei, ainda, dos profissionais, dos aprendizes, dos ex-alunos, dos parceiros e elos formados ao longo do caminho.
O passado mostra exatamente o presente que construímos; quando observamos nossas decisões, quando fazemos nossas escolhas, é ele, tão somente ele, que nos leva à grande pergunta. Porque estou aqui? Por que isso aconteceu comigo dessa forma? Uma sensação boa de um vazio saudável e ao mesmo tempo uma nostalgia quase bucólica, nos coloca diante de uma vida, que poderia ter sido outra, qualquer outra. Esse mergulho no ser, essa estranha valsa que parecemos dançar ao redor de um salão às vezes cheio, às vezes vazio, às vezes démodé.
Estamos agora aqui, vendo esse tempo, vivendo esse momento. Estamos diante de algo, estamos num lugar, numa era. Estamos realizando ou não, estamos rodeados de amigos, ou não, estamos felizes, ou não. São caminhos que continuam em aberto, olhares que nos miram de algum lugar, sensações que nos buscam lá no íntimo, revelações que vão aos poucos, colocando em cheque, nossa alma, nossa ética, nossos delírios, nossas vidas.
Ser artista é algo indecifrável, indefinível. É uma escolha cósmica, quase transcendental, mas acho que isso se aplica ao ser; se dirige ao ser de qualquer profissão escolhida com amor, com paixão. A escolha pela arte é uma espécie de decisão contida e fluente de repartir o pão, de comer na mesa dos reis e dos comuns, de estar identificado com tudo e com nada, de seguir uma estrada configurada por metáforas onde nos tornamos ricos, pobres, alegres e deprimidos, juntos e evadidos de nós mesmos.
Compartilhar o que se tem, o que se pode dar, em troca do que o outro pode oferecer é um jogo necessário na arte, essa riqueza única, esse caminho único que pode nos levar e nos trazer numa gangorra de sonhos e na utopia pela liberdade plena, só possível, talvez, com a morte. Sentir-se assim, é compartilhar isso e mais, é pular amarelinha com a existência, mas, principalmente, existir, para si mesmo, para os outros, para o todo.

Jiddu Saldanha – 11.01.2013